ESPECIAL DAEE - Um refúgio pioneiro para animais silvestres
Revista ENGENHARIA - Edição 595/2009 - Pág. 86 e 87

    O Centro de Recuperação de Animais Silvestres (CRAS) "Orlando Villas-Boas", do Parque Ecológico do Tietê (administrado pelo DAEE) conquistou, no último dia 4 de setembro, o prêmio Benchmarking Ambiental Brasileiro 2009. A premiação é uma iniciativa da ONG Mais Projetos Gestão e Capacitação Socioambiental e visa selecionar e compartilhar os melhores cases de práticas de excelência em gestão socioambiental do país. Em 2008, o DAEE havia conquistado o prêmio com o Programa Água Limpa.
    Criado em 1986, inicialmente para repovoar o Parque Ecológico do Tietê, o CRAS funciona como um refúgio pioneiro para recepção e tratamento de animais silvestres, provenientes de apreensões do tráfico ilegal realizados pela Polícia Militar Ambiental e pelo Ibama. Além de ser o primeiro órgão no Brasil a realizar esse tipo de atendimento, é o principal no Estado de São Paulo. Depois de alguns anos de funcionamento, com o Parque Tietê completamente repovoado, o CRAS passou a libertar os animais recuperados em outras áreas de soltura credenciadas, de acordo com sua origem e a demanda.
    O CRAS recebe atualmente uma média de 7.000 animais por ano, entre aves, répteis e mamíferos. A grande maioria são aves, cerca de 80% de várias espécies: araras, corujas, periquitos, bem-te-vis, beija-flores, gaviões, carcarás, falcões, tucanos, entre outras. Em seguida, vem os répteis - lagartos, cágados, iguanas e cobras. Em menor proporção, os mamíferos, com predomínio dos primatas. Depois disso os veterinários e técnicos do centro tratam e recuperam os animais para devolvê-los à natureza. Somente quando não há mais como readaptá-los ao habitat natural é que eles são enviados ao criadouro, para reprodução em cativeiro. A média de devolução é de 60%. Esse é um índice que pode ser considerado bom, em função da taxa de mortalidade - altíssima - produzida pela violência dos métodos do tráfico.
    A maioria das aves e outros espécimes chega ferida e debilitada, por ter sido mantida em péssimas condições pelos traficantes. Algumas vezes porque esses animais foram transportados sem o mínimo de cuidado, outras, porque mesmo recebendo os cuidados de um dono bem-intencionado não vivem em condições adequadas, por estarem presas e fora de seu habitat natural. O CRAS também recebe doações de pessoas que resolvem devolver à natureza o animal silvestre que mantinha em casa, sem qualquer risco de punição legal, já que a lei garante a isenção na imputação de pena nesse caso. Só em 2007 foram acolhidos dessa forma mais de 400 jabutis. Por viverem muito tempo, é comum chegar o momento em que o dono quer desfazer do bicho.

    Segundo os funcionários do CRAS também é habitual a ilusão de que se o animal for cuidado com carinho, vai ficar bem em cativeiro. Mas normalmente sofre e adoece, por melhor que seja o tratamento recebido, devido à condição inadequada a que fica submetido, contrária à sua natureza. Exemplo disso é a quantidade de aves que chega do local com o empenamento comprometido. Muitas arrancam as próprias penas, numa reação involuntária de automutilação provocada por estresse. Mas são constantes também os episódios de animais feridos intencionalmente. São casos de macacos com dentes serrados para não morderem, pássaros com olhos perfurados ou queimados por bitucas de cigarro para ficarem mais dóceis e cantarem, e aves de rapina com garras arrancadas para não atingirem fisicamente o homem.
    Aves de rapina, cujo primeiro voo não é bem sucedido e pássaros que se enroscam em linhas de pipa são outros exemplos de casos acolhidas pelo CRAS. Depois do tratamento adequado, as aves podem ganhar os ares num recinto de treinamento de voo, para depois ampliarem as horizontes. A equipe encarregada de cuidar dos animais em tratamento no CRAS é formada por três veterinários, um biólogo e nove tratadores. Eles atuam numa estrutura formada por recintos adequados às necessidades dos animais atendidos, entre os quais há um ambulatório e uma Unidade de Terapia Intensiva. Na chegada, são identificados e recebem os primeiros cuidados. O tempo de permanência é variado. Animais ainda bastante selvagens costumam ter o retorno à natureza mais breve, quando a recuperação permite. A rotatividade é grande e a demanda cada vez maior, por causa da intensificação da fiscalização nos últimos anos.

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Fonte: Revista ENGENHARIA nº 595/2009
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